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Lar
doce Lar
Razões
aos montes
Vim para o CCA
porque eu estou com fome.
Estou com fome de
ser escutado, de ser levado a sério. Preciso que me dêem
tempo e atenção. Quero que as pessoas olhem para mim
quando falo com elas. Vejo esta mesma fome nos outros, naqueles que
agem agressivamente e no entanto gritam em silêncio: Olhem
para mim. Vejam que eu existo.
Vim para o CCA
aprender a sentir. Tenho me destruído com entorpecimento,
compulsões e devaneios. Tenho um bilhão de
lágrimas não derramadas. Quero ser capaz de expressar
minha fúria. Preciso da cura que se obtém ao ser
deixado sozinho, sem críticas ou agrado, quando só
preciso de espaço.
Estou faminto por
ser tocado e quero ser abraçado. Há muitos anos
não deixo ninguém se aproximar de mim, meus melhores
amigos foram personagens de romance. Preciso de abraços,
principalmente quando estou com raiva, que é um disfarce do
meu medo. Nada me faz derreter mais rápido do que um
abraço caloroso.
Quero ser
compreendido para contar aos outros minhas loucuras sem que eles
arregalem os olhos. Quero que os outros me escutem e digam: Eu
o compreendo porque também estive lá. É
importantes estar perto de pessoas que falem nossa língua, a
linguagem do coração. Tenho fome de ser aceito quando
divido minhas vergonhas secretas. Dê-me audiência sem
censura. Guarde o que digo como confidencial.
Procuro pessoas
que sejam pacientes, que percam tempo tentando transpor minha fachada
algumas vezes fruta e que desculpem quando eu tropeçar.
Preciso estar ao
redor de pessoas que me lembrem de buscar o progresso,
não a perfeição e que me digam
não vá embora antes que o milagre
aconteça. Preciso de encorajamento que me diga que eu
posso me tornar inteiro. Preciso ver e ouvir falar de
recuperação para que eu possa manter uma atitude de esperança.
Preciso estar
perto de pessoas que estejam praticando os princípios em todos
os seus assuntos, pessoas que incorporam fé, serenidade,
moderação e gentileza. Ajuda verificar que membros que
passam dificuldades se fortalecem quando mantém um contato
consciente com o Poder Superior. Esses exemplos permanecem comigo,
mesmo depois da reunião, gravados firmemente no meu coração.
Estou faminto por
honestidade. Ouvir membros serem eles mesmos, dividindo sua dor sem
nenhuma abstração, chavão ou
representação, apenas a pura experiência que me
dá força e esperança.
Quero rir,
principalmente de mim. Quando conto como engolia barras de doce
enquanto lia livros de nutrição, preciso ouvir a
música curadora da risada.
Tenho fome de
responsabilidade, das pessoas expressarem sua confiança em
mim. Sou grato por ter a oportunidade de prestar serviço,
sentir-me necessário e útil.
Vim para o CCA
para estar ao redor das pessoas que buscam o que está certo em
vez do que está errado, pessoas que falem de gratidão.
Preciso ouvir as pessoas aplaudirem as histórias dos outros,
mesmo que eles tenham contato um vitória ou a dor de um erro.
Estou ansioso por
aprender. Minha alma alimenta-se quando ouço falar de um Poder
Superior terno e ao viver um dia de cada vez.
Estou faminto por
amor, por fazer parte de algo, de sentir que eu pertenço.
Sinto isso na energia do final das reuniões, fazendo-me querer
demorar-me em abraçar cada um.
Preciso ficar num
lugar seguro, onde os princípios estejam acima das
personalidades, onde o forte não domine o retraído.
Gosto do processo ordeiro de saber o que esperar.
Quero retribuir o
que recebi, dividir com os outros o que aprendi. Quero mostrar meu
crescimento na recuperação e levar a mensagem que fala
do trabalho dos 12 Passos, soprando velas nos aniversários de
minha abstinência. Quero estar lá para as pessoas, da
mesma forma que elas lá estiveram para mim.
Algumas vezes,
tarde da noite, eu ainda fico com fome. O vazio me engole na hora em
que não há reunião ou ninguém para
telefonar. Mas agora, sei como alimentar essa fome. Abraço-me,
escrevo uma lista de gratidão, perdôo-me, aceito-me, rio
de mim mesmo e tenho uma conversa franca com o Poder Superior.
No dia seguinte,
anseio por encontrar alguém cujo olhar esteja dizendo:
estou com fome, talvez um novato escondendo-se num canto
ou um membro antigo, voltando 25kg mais gordo e dizendo: gosto
do que vocês compartilham ou essa sua blusa é
muito bonita. Posso te abraçar?
Anônimo / Extraído
de Lifeline em português, fevereiro de 1990 |